14.10.07

Pedras de gelo

Só faltou perfurar-lhe o corpo. A dor e o chofre que o granizo impôs nas suas oliveiras arruinaram a estética, as linhas suaves e esverdeadas, rendilhadas aqui e ali por bicadas dos pássaros. A fronteira intransponível da pele, a delas, reconvertida a coador. A redondil ficou toda furada. Mesmo assim estão lindas, todas carregadinhas, as abas delas parecem uma chuva suave, os olhos tocam-nas com carinho e as folhas ouvem as suas palavras ternas de franca recuperação.

10.10.07

É quase tão bom como o Pipi, o homem das bolas telecomandadas.

Ganhar alento

Quando a certeza de algo que não se voltará a repetir, recuperar tempos idos, saborosos, que perduraram para lá da Cimpor e da branca espuma das ondas. Isto era tudo, foi tudo.

"Recordo sim essa noite em que subimos a serra de luzes apagadas e lá do topo ficámos a ouvir e a cantar a Tempestade na cassete que rodava incansável como o farol que lá em baixo girava como as ondas que distantes espumavam em estoiros. Aos amigos, a nossa curta-metragem, o nosso cimento, fóssil na pedra."

9.10.07

Ensejo

Assim, semi-nu, encharcado no suor de uma corrida louca, num esforço totalmente inútil de não deixar um rasto que fosse, uma molécula, um cabelo, um suspiro, uma lágrima, um grito. Que o meu recorte neste chão, escuro, sem vida, sem interstícios, sem nuances, sem dor nem prazer, denso e imutável de mim se destacasse. Assim, Noa, no meio da estrada recentemente alcatroada, ainda quente do sol que nela descansou durante todo este dia, que levou víboras e sapos e osgas e salamandras pretas com pintas amarelas a atravessarem-na e nela se depositarem, mesmo assim, sou eu o único réptil que rasteja, correndo. Rastejo-me. Hoje, de má memória, ignóbil e abjecto, apresso-me, no único acto lúcido que neste momento me ocorre, a comer as raízes, envenenadas por certo, que estiveram no assentamento de todo o mal que te fiz.

Oxímoros pela manhã

Na rubrica de Internet da Antena 3 falaram acerca do site remodelado da MTV Portugal. Biografias mais extensas dos artistas, informações sobre concertos, passatempos, críticas sobre jogos de consolas. Deixei de ouvir quando me pediram para votar nos Buraka Som Sistema para a categoria de New Sounds of Europe. Era só o que faltava. Não gosto, não gosto, não gosto.

Do cabelo à culinária

Reparo que há um novo champô lá em casa com óleo de abacate e manteiga de Karité. Acho que nunca comi nada que fosse assim tão requintado.

Pulseira? Anel? Mala? Aquele top giríssimo?

Nada de novo, mas tudo novamente mal, difícil, inominável. Na hora da decisão, da escolha, da alternativa outra, aquele suspiro que indicia um pensamento, "que raio faço eu aqui?". É uma noção assustadora de querer, a todo o custo, corresponder às expectativas sabendo que estas estão, à partida, viciadas pelo circunstancialismo do que se afigura como uma tarefa impossível. "Mais valia ter ido para casa. Isto é uma vergonha. Como é que ela é?. Oh minha senhora, é a mulher que me preenche, é a mulher que eu quero. É tudo o que quero saber acerca dela. Na verdade, tudo o que sei acerca dela está nesta frase." Mas não basta. Certo e sabido.

Começa-se, então, a pensar num rol de actividades que poderia estar a praticar, a experimentar, a reviver. Não queria estar aqui. Poderia estar perfeitamente a fazer bolhinhas de sabão, com aqueles tubinhos que se vendem nas feiras. Tentar fazer aquela bolha gigante, e depois uma outra, tendo como objectivo último a união entre essa a outra entretanto insuflada. Ou meter a bolinha naqueles buraquinhos na tampa desses frasquinhos. Meter as duas bolinhas é que era mesmo difícil. E o cubo? Não hei-de morrer sem fazer aquilo. As corzinhas todas, chiça. Que trabalheira, aquilo sim, dá-me a volta ao miolo. A história dos castelos na areia não. Não, isso não que nunca tive jeito nenhum. Nem para isso nem para jogar às cartas. Nem jogos de estratégia e já agora, nem para negociar as coisas nas feiras. Levam-me sempre à certa, os sacanas. Jogar futebol, sim, futebol. Ou squash. Comecei a adorar squash. Porra, tenho também que arranjar o comutador para as colunas novas do portátil. Como é que aquela porcaria não funciona? Dá um gajo uma pipa de massa para chegar a casa e funcionarem 3 de 6 colunas. Ele há coisas...

A figura ridícula, continuo a fazê-la. Aquele sorriso forçado, semi-envergonhado, ao mesmo tempo que a senhora pensa "mais um que não percebe nada do que é que uma mulher quer". O sorrisinho sarcástico, o olhar de soslaio, aquela troca de palavras em surdina com a colega de trabalho seguida de uma risadinha enquanto olham as duas para mim. Tento refugiar-me, social e psicologicamente, dando aquele ar semi-distraído e/ou interessado enquanto ponho as mãos atrás das costas para observar o colar da última colecção na MD. Como vê, castanho, com um ornamento em metal lindíssimo e altamente invulgar, uma peça única. Única.

Única, a única escolha impossível, diria.

4.10.07

Oh João!

“Foi dos maiores choques da minha vida ver que aquela matéria causava um profundo mal-estar, era como um corpo estranho no corpo ético do PS."

"Oh João!" é também o nome de um talho por baixo do apartamento de um amigo meu.

É boa disposição e faz maravilhas à alma.


De cavalo para burro

Na Feira de S.Mateus, não a de Viseu, mas a de Elvas, que também é muito boa, tem imensos stands de automóveis e isso, diversões até, juntavam-se há cerca de 63, talvez 65 anos, ou mais ou menos, todas as famílias cujas vidas se desenrolavam nas cercanías daquela cidade. O evento não era para menos, a Feira de S. Mateus era o evento, i.e., a única altura de alguma agitação, folia e festividade num Alentejo miserável, trabalhador e explorado.

A duração: uma semana. As parentelas vinham nas suas carroças lá de muito longe, tipo 4 quilómetros, ou mais, 50, por exemplo, e juntavam-se todas nas redondezas da feira. Ali se pernoitava, comia e bebia. A gestão social era feita pelo animal tractor da carroça. Não seria o modelo destas últimas a condicionante ou indicativo do estrato social pertencente, mas o próprio quadrúpede. As três classes, como hoje temos os jipes, os utilitários, os comerciais e os Pandas e 4L, eram, por ordem decrescente, cavalos, machos, burros.

Numa das edições desta feira, um senhor, desprovido de qualquer preconceito, estacionou a carroça, com o asno de sua propriedade, junto a um grupo de fidalgos detentores de nobres equídeos e híbridos funcionais. A reacção, que não tardou um par de horas a surgir, veio de alguém da alta sociedade, cujo Equus caballus, de porte elevado e cor límpida, se encontrava em animado convívio (não tão animado assim) com o de estrato social inferior.

Com algum tipo de receio que o intercâmbio entre os animais pudesse conspurcar a limpidez e rígida estratificação social em vigor na altura, a ameaça ao proprietário do jumento foi breve, mas clara: "Ou você tira já daí o burro ou tratamos-lhe da saúde!"

O ameaçado, irado não só pela ameaça mas também pelo motivo da mesma, pegou na vara de marmeleiro com a qual estimulava o jerico, empunhou-a bem alto e disse: "ai querem-me tirar daqui mais a minha família por causa do burro?!Então venha de lá o primeiro!".

Esse senhor era o meu bisavô.

p.s. Nem o meu bisavô nem a família dele arredaram pé. Nem o burro, já agora.

29.9.07

A semana passada

A história deprimente, recorrente, repetindo-se em ciclos, alguém já o terá dito. Todas as semanas a tomada da consciência, seguida da escuridão, momentânea, infalível, que sempre chega. Os regimes ditatoriais, totalitários, o baixíssimo valor da vida humana, os militares, as manifestações, as mortes, os detidos. A semana passada começou com o Mugabe e acabou com Myanmar, Birmânia, chame-se lá o que quiser. Países com algum potencial de desenvolvimento, totalmente encerrados sobre si próprios sob o desígnio de líderes que não têm dificuldades em dar ordens de disparo aleatório a pessoas que se manifestam pacificamente, de acabar com toda a comunicação social que não propagandeie um qualquer regime, de provocar subidas de taxas de inflação aos 15000% (?!), de manter as pessoas fechadas em casa para evitar manifestações. No Myanmar affair a Rússia e a China, à boa e velha maneira, dizendo que as repressões são "precoces" e não manifestam qualquer tipo de oposição mais demarcado ao que naquela zona se passa.
Não, a semana passada não fez bem às cabeças que pensam liberdade, que pensam na liberdade. Mau negócio.

27.9.07

Impressões de uma manhã de quinta-feira



Não sei como é que perdi esta pérola ao vivo. Audiências, interesses económicos, jornalismo desintelectualizado, editores acéfalos. Seja como for, desta vez o homem teve razão.


Diz que fecharam as transmissões futebolísticas no TVTuga

Que a Sporttv não descansa enquanto não detiver o monopólio total de toda e qualquer transmissão desportiva televisiva em Portugal, já não constitui novidade para ninguém. Baseando-me puramente em boatos, diz que foi alguém da Antena 1 que terá perguntado a um responsável da Sporttv o que achava do facto do TVTuga estar a transmitir, via net, jogos de todas as ligas europeias, Liga dos Campeões, ligas sul-americanas, chinesa, etc. Diz que foi neste momento que esse canal televisivo teve conhecimento do site. Na verdade, nem interessa quantas ligas, quantas competições eram transmitidas porque de facto o que se verifica aqui é uma total ganância pura e dura, uma discrepância atroz entre o mercado que se quer atingir e aquele que realmente se pode atingir.
Não percebo, ou não quero perceber, o que está por trás destes lobbies que em tudo são determinados pelas leis do mercado. Quando o Domingo Desportivo era o programa de eleição de fim-de-semana, com os resumos (na verdadeira acepção da palavra, assim com os golos todos e isso) dos jogos, não só era um fartote, como de facto começávamos a semana com a barriga cheia e a cabeça pronta para cinco dias da vida. Podíamos falar dos melhores golos a nível europeu, sabendo efectivamente que tinham sido todos mostrados.
Com aquele acordo entre a TVI e a Sporttv, para além de termos resumos de metades , repito, metades de jogos, nos intervalos dos mesmos ainda temos que comer com toda a merda que nos querem dar (como por exemplo, um Benfica-Leixões) e isto simplesmente não é admissível. E nem estou a falar do João Querido Manha.
Tristes, nós, os que não temos, não podemos, arre pôrra, não queremos ter Sporttv, ainda esperar pelos resumos do futebol internacional e ouvir "agora passamos a ligação em directo para a redacçao da Sporttv". É aqui que se atinge o auge da incompetência, da ganância, da soberba, da presunção de todo e qualquer pecado capital que possa existir. Barcelona-Real Madrid, época 2006/2007, jogo do título, emoção ao rubro, jogaço tremendo, resultado final: 3-3. O que é que a Sporttv faz? Simples: mostra no máximo dois golos e o povão que se lixe.

Aqui entrava o TVTuga. Resumos disponíveis. Os golos, todos. Tudo. Arquivo. Jogos da Liga dos Campeões. Barcelona-Arsenal. Man. Utd-Milan. Sporting-Bayern Munique. E mesmo jogos totalmente secundários e supostamente desprezíveis. Corinthians-Flamengo. Shingzu Tin- Tin Shingzu. Al-ahly-Al-Ittihad. Fátima-Porto (!). Benfica-Desportivo das Aves, com brinde de visionamento do Professor Neca e tudo.

De qualquer maneira, era bom, era acessível, era rápido e sem custos. Serviço público, portanto. Ganância de gema moralmente indefensável. Fica a nota: a mim não me lixam, e não me enganam. Estive sem Sporttv muitos anos e vou continuar sem Sporttv por ainda mais. Confio que alguém lá me arranjará maneira de ver os jogos de novo, no TVTuga ou noutro lado qualquer. Mas era bom que, de uma vez por todas, se acabasse com esta mentalidade serviçal às leis do mercado.

Em Espanha (não consigo deixar de gostar daquela gente, por muito que isso revolte), a capa do jornal Marca de hoje mostra a indignação face a essa subserviência da transmissão dos jogos em sinal fechado. Sim, provavelmente só fazem isso proque é o Real Madrid. Mas, afinal, o que é que importa? Serviço público é serviço público. E aqui ao lado age-se em conformidade com os interesses da maioria, não com meia-dúzia de boys com tendências ditatoriais. Como disse o Zé Mourinho, é o fim da democracia.

25.9.07

Não sei se ria, não sei se chore #2

"Hoje fazem anos: José Souto Moura, ex-procurador-geral da República, 57; Mário de Carvalho, escritor, 63; Sofia Alves, actriz, 33; Gonçalo Waddington, actor, 30; Pedro Espinha, antigo futebolista, 42; Petit, futebolista do Benfica, 31; Ednilson, futebolista do OFI (Grécia), 25; João Ferreira, árbitro de futebol, 40; Adolfo Suárez, antigo presidente do Governo espanhol, 75; Michael Douglas, actor, 63; Catherine Zeta-Jones, actriz, 38; Heather Locklear, actriz, 46; Will Smith, actor, 39; Zucchero, músico, 52."

Não sei se ria, não sei se chore #1

Discurso de Ahmadinejad na Universidade de Columbia. Um excerto para aguçar o apetite: "No Irão não existem homossexuais".



And now for something really useful

O autor deste blog vai falar na terceira pessoa porque lhe dá ar de jogador de futebol.

O autor deste blog é uma pessoa que exerce a sua cidadania activa nas várias componentes da vida diária, pessoal e social. É boa pessoa. Freia a marcha do veículo quando perto de uma passadeira. Deixa passar os autocarros mesmo quando estes não têm prioridade e separa o lixo. Toma banho todos os dias e não gosta de andar sujo e a cheirar mal. Mas o autor deste blog não suporta um conjunto de coisas. Entre outras, o autor deste blog não suporta chegar à casa-de-banho do seu local de trabalho e aquilo parecer as praias da Normandia 24 horas depois do Dia D. Não, ele não suporta isso. E então, quando entra na dita e vê aquele chavascal, contorce-se com dores de cabeça provocadas por uma raiva intensa, e pura. Então, o que é que o autor deste blog faz?

Primeiro pensa, respira fundo B., respira fundo. Não B., não respires fundo, não faças isso. Procuram-se opções, esquemas outros. Tudo bem. Vejamos. Olha em volta, nada. Armário. Huuummm, será? Vislumbra-se ouro transparente. Ajax Multiusos Desengordurante, mais 50% grátis. É isto mesmo. O autor deste blog, numa paciência infinita, limpa o tampo da sanita para aniquilar resquícios inaceitáveis de outrém.

Este blog manifesta-se assim, por via do seu autor, contra qualquer tipo de porcalhice acumulada nas casas-de-banho dos locais de trabalho e sugere algum tento aos autores e autoras de tais actos dada a pluralidade de corpos que por ali passam, e se sentam.

Noites inquietas

Podes dizer o que querias, podes sorrir como sorrias, podes abnegar a dor que te acompanha. O sonho não comanda a vida. Substitui-a, por vezes, repondo o que falta ao despertar.

Um novo dia ao estilo CSI. Ou não.


Recomendação deste senhor.

24.9.07

Juro, mas juro mesmo que pensei em ocultar isto para sempre, mas não aguentei mais...(Na altura ainda estávamos na pré-época, e isto é uma conversa no MSN com um amigo francês)

yanninho diz:and bad time in the balisa for sporting
B diz:oh yeah
B diz:Why?
yanninho diz:because this goal keeper (Stojkovic) made a lot of frangos with nantes last year
B diz:he did?!
B diz:oh shit
yanninho diz:oh yes
B diz: :P

20.9.07

Fronteiras

Está comprovado que quando um grupo socialmente constituído (ainda que não pessoas) em torno de um objectivo comum vê goradas as suas expectativas, se vê obrigado a reivindicar um passado que, sabe-o à partida, não voltará. Como lamento estes adeptos.