30.5.08

Incrível é isto

A Ana e o Eduardo e o Pacheco e seja lá quem for só estão a perder uma piquena alínea: tão ou mais previsível que o maremoto mediático que se vive à volta da Selecção Nacional era virem inevitavelmente associadas as tradicionais críticas a tal fenómeno gerado pelo "povão". A saber: também não me interessa a dieta dos jogadores, o que gostam mais de ler logo pela manhã (as hipóteses, de qualquer maneira, não serão muitas - Record, A Bola, O Jogo), o que fazem nos tempos livres, o que não fazem nos tempos livres, o que vestem, que número calçam. Mas daí a começar com a sistemática conversa do "acicatar do entusiasmo popular e do patriotismo bacoco" já é, de um certo ponto de vista, perda de tempo.
Os/as illuminati que por aí andam, a reboque das noções de "este país não sabe nada, não aprende e afins" esquecem-se, entre outros pormenores, que este é um fenómeno global e diria mais, europeu, até. Inclusivamente em países evoluídos como a França, a Espanha, a Suécia (que, a propósito dos/as fãs da superioridade intelectual e social dos nórdicos, fiquem desde já sabendo que o grande evento anual deles é o Eurofestival da Canção cuja música vos deixo em epígrafe), a Alemanha e os outros todos que estão lá.
E portanto, goste-se ou não de Scolari, goste-se ou não do destaque dado à Selecção, três coisas neste momento são certas: uma é que à primeira vitória da Selecção estarei, como tem sido costume nos últimos eventos desportivos, com o meu barrete, cachecol e techerte na Praça da República acenando vigorosamente aos veículos que passam. Pode ser que esteja lá outra vez o pessoal da carrinha com a imagem da Nossa Senhora no capot. Dois, que quem não quiser ver tem, como eu tenho, a hipótese de mudar de canal. O facto é comprovável por viver em Portugal e, à excepção dos jornais desportivos online que leio com fervoroso deleite, não ver mais nada que se relacione com a selecção há mais de 3 dias. Três, para deixar aqui um xeque-mate às pseudo-intelectualidades desconhecedoras da possibilidade cósmico-neonizada de conhecimento e bola se poderem coadunar, deixar tão só o dito que o Derrida, antes de ser "0" Derrida, queria ser jogador da bola.
Tenho dito. Força Portugal.


9.5.08

Manual do bom conservador

Insultar a mulher de um amigo e pedir-lhe desculpa a ele.

2.5.08

A tua

É bem verdade, como diz o Francisco, que já não é a mesma coisa. E não. Muito se perdeu com o passar dos anos, naquele tempo é que era, o espírito era outro. Mas já deves ter ouvido tudo isso. Vou tentar, dentro do que me é permitido, não me lembrar de tudo o que é negativo e já não faz parte desta festa, que foi outrora bela, meaningful. Apesar de tudo o que te tenho dito, e do que já me ouviste dizer, para mim, este ano, não tem importância tudo o que não há de bom. Por uma única razão: é a tua queima. Muitos parabéns Andreia Paulinha.

Quem é amigo?

Apoios de milhões de euros aos desempregados pouco eficazes

Na viragem da década, o Estado gastou muitos milhões de euros em políticas de apoio à reintegração de desempregados no mercado de trabalho com efeitos quase nulos. Esta é a conclusão central de um estudo publicado recentemente pelo Banco de Portugal, onde são analisados dois programas específicos vocacionados para apoiar jovens e adultos.

Sim, lembro-me bem do que é estar desempregado. Também me lembro bem desses programas miraculosos que o Governo, através dos Centros de Emprego (CE), propõe às pessoas. Lembro-me particularmente bem de me terem "proposto" uma formação sobre Novas Tecnologias da Informação de 560 horas, em que na primeira aula se explicou o programa do curso. O sobressalto surgiu assim que a senhora ao meu lado ouviu falar em Internet e se limitou a perguntar "mas o que é isso da Internet?!". Pegou no rato e disse "mas a seta sai da televisão!". Há cerca de 5 anos.
Juntam pessoas de 20 e poucos anos, acabadas de sair da Universidade, com pessoas que desempenharam trabalhos manuais numa fábrica durante 35 anos. Não se adequam programas, não se fazem triagens para uns e outros trabalhos. É desempregado/a? Siga para o mesmo tacho, são inválidos/as e precisam de formação.
Também me lembro de querer pedir subsídios. É. Subsídios que, se a eles fosse possível recorrer em tempo útil de vida dariam apoio para criar o nosso próprio emprego. Burocracias que demoram meses a ser tratadas. Um centro de emprego que muitas vezes dificulta mais do que facilita a obtenção de emprego. "Sessões de esclarecimento" que mais não fazem do que atirar poeira para os olhos das pessoas, fazendo crer que, apenas com persistência, lá "conseguirão chegar, oh olhem para mim como exemplo".
Lembro-me bem da humilhação que se sofre nos CE, de funcionárias arrogantes que perguntavam "já fez formações? De certeza que ainda não fez nenhuma". "Já sim senhora, 7 desde que fiquei desempregado". "Já enviou CV's? aposto que ainda só enviou 3 ou 4!""Já sim senhora, cerca de 120". "Sabe fazer um CV?" "Sei sim senhora, tenho aqui alguns para ver". Entra-se num CE e somos todos diferentes, todos iguais, meta-se tudo no mesmo saco. Gastam-se milhões mal gastos? Pois gastam. Sentir, só uma coisa: que às vezes é um golpe de sorte entre o tudo e o nada. O que só torna isto mais assustador.
Em bem da verdade, as políticas do Estado, embora bem intencionadas não conseguem mais do que isto: sustentar Centros de Emprego que mais não são que meros paliativos.

29.4.08

A preceito

A diferença é engraçada até ao ponto em que sou destituído da vida normativa.

26.4.08

A campanha do terror

A um domingo, almoçar à uma, impreterivelmente, sendo acordado às 12h30 com mãe vociferando "Olha que o carapau já está a grelhar!".

24.4.08

Ainda sobre o Nick

Dizer que a última vez que senti algo verdadeiramente ultrajante foi na Box do Jumbo, no Chibita, como já ouvi chamarem-lhe, e ver o Nocturama, do Nick, coladinho a um do Tony Carreira, num amontoado de álbuns em escandalosa rebaixa.

23.4.08

Oxímoros pela manhã

Ver o arrumador, dentro de um carro, a pedir ajuda a um transeunte para estacionar o mesmo.

22.4.08

A nossa sorte

Há pessoas assim. Ora nos deixam num estado de euforia inebriante que parece não ter fim, esticando as nossas reservas até ao limite (acho que a palavra poderá ser esfuziante), provocando-nos repetidamente um desejo de libertar a adrenalina toda de uma vez para a corrente sanguínea e, consequentemente, arrancar as roupas e começar a correr nu que nem um perdido para lado nenhum e ver cenários devastadores, brutais assassinatos romantizados. Ou nos trazem carradas de melancolia, dor, nostalgia, religião, credo, morte e um desejo mórbido, esquisito e, depois, repelente, que não acreditávamos estar em nós. Esta pessoa em particular, o Nick, como gosto de o chamar de há longa data (há já 15 anos), provoca-me isso, e muito mais. Vale sempre a pena, o sacana. Por demais. Volta depressa Nick, volta depressa.



E aquele bigodinho meninas e meninos, aquele bigodinho!

21.4.08

Melhor metade

Recomeçar, uma e outra vez. Sentir o fim e voltar de novo ao início. Não te vou enganar, é isso mesmo. Sentir que é o fim e voltar sempre, sempre, ao início. É acreditar que essa é mesmo a única maneira de não acabar, o eterno retorno aos inícios, ao princípio de tudo. Diferentes, pois. É que sempre que te quis não te tive. É diferente, agora. Nada foi, tudo é, com vento pela frente, bem como gostamos. Sentimo-nos. Sem chuva, nublado, agradável. Não me interessa. Interessas-me tu, a minha melhor metade. E essa, quero-a sempre comigo. Sempre.

10.4.08

O choque de uma sociedade

É racional pôr um país em histeria por uma aluna ter levado um "calduço" de um colega na escola só porque foi filmado? Na minha escola, e suponho que por todas as outras por esse país fora, entre outros rituais bem mais sinistros intra e intersexuais, levavam-se os rapazes "ao poste". "Levar ao poste" era, como diz o meu primo, e com razão, uma judiaria. Daquelas "à séria". Era uma prática que consistia em meia dúzia de jovens adolescentes pegarem num, abrir-lhe as pernas contra a sua vontade expressa ou não, porque isso não interessava nada, e, conforme a própria definição, empurrá-lo com toda a violência contra um poste. Não sei quais terão sido os efeitos desses actos na vida sexual e reprodutiva de alguns dos meus amigos e colegas (consegui fugir de todas as investidas) mas, agora que penso nisso, só me consigo lamentar por ainda não existirem telemóveis com câmara na altura.

Hoje


Foto: http://www.gvengenharia.pt/images/estadio_sporting.jpg

Trabalha-se, corrigindo, preenchendo, substituindo, escrevendo. Hoje não se almoça. Hoje, também, leva-se um impermeável, uma camisola verde-e-branca, um cachecol, leão ao peito, uma fé do caraças e ala com o menino para Alvalade, em romaria, acompanhado de umas minis e pataniscas, esperando que o Levezinho, ou outro qualquer, na verdade, faça das suas. Nem que seja o Paulinho. Naquele rectângulo verde, ali em cima. Levam-se as meias verdes com os losangos calçadas. Que sirvam de inspiração para o modelo táctico, que eu, pessoalmente, já não posso com ele. Hoje, leva-se uma tarja com os dizeres "Paulo Bento, dá-me o teu penteado". Pode ser que a coisa, exibida por um gajo semi-careca, tenha piada, e eles (nós) marquem alguns para a continuação da boa disposição. Pelo menos um a mais que os outros, é quanto chega. Mas, brincadeiras e jogo à parte, é importante que não veja o meu desejo do penteado correspondido. Força Sporting, sempre contigo.

8.4.08

Choque tecnológico

Ainda hoje, quando passam na TV, no rádio ou até numa discoteca, as músicas que, gravadas nas minhas cassetes, ocupavam o estado liminar entre o lado A e o lado B, fico à espera daquela pausa que indicava ser altura para ir rapidamente ao deck mudar de lado.

1.4.08

Ausência #1

Ausência #1

Foto: Carlos Barradas. Clicar para aumentar.

31.3.08

As minhas desculpas pela prolongada ausência

Este blog volta ao activo dentro de 24 horas.

P'la gerência

10.3.08

Devem estar a preparar alguma

Nunca roubei dinheiro da carteira dos meus pais e sempre lhes disse a verdade, custasse o que custasse, a mim ou a eles. Era eu pequenito, prestes a incorrer talvez no primeiríssimo acto ilegal da minha vida, e liguei à minha mãe avisando-a do facto: "Mãe, não vou estar em casa porque vou roubar fruta com os meus amigos". Apesar da indignação dela (toldado por um riso que me deixava estupefacto e que só mais tarde vim a aperceber ser de zombaria pura e dura pelo aviso), fi-lo. Ora, normalmente estas atitudes eram precedidas de bons comportamentos. Tinha feito a cama de manhã, arrumado a roupa no armário ou algo assim do género.


Isto traz-nos a declarações surpreendentes que nos foram presenteadas por nomes sonantes do PSD. Primeiro, um Luís Filipe Menezes sincero a dizer que o PSD ainda não merece ser Governo. Depois Rui Rio, com uma honestidade incorruptível (concorde-se ou não com os ideais, tenho conhecimento real de que é, efectivamente, uma pessoa honesta) afirmando que as alterações aos regulamentos do PSD "abrem porta à lavagem de dinheiro". Agora, António Capucho que ameaça demitir-se da concelhia do PSD de Cascais por recusar "ser presidente com uma caixa registadora ao lado para receber as quotas dos militantes", e já Marcelo Rebelo de Sousa e Pacheco Pereira tinham criticado os novos regulamentos do partido. Santana Lopes, claro, no alto da sua sabedoria, desvaloriza tudo isso. Afinal quem são esses meninos?

Ora, eu cá não sei se algum deles vai roubar fruta, e sou impelido a pensar que nenhum me vai ligar a avisar, mas que alguém está a preparar alguma, disso já não tenho dúvidas. Não existem comportamentos assim tão ilustres na política.

Só estou a perguntar

Os pêlos grisalhos que crescem dentro do nariz também contam para o charme?

6.3.08

Das modas

João Morcela, querendo comprovar a velha escola a que seu pai pertencia, referia amiúde que aquele tinha parado no tempo aquando da ocasião do festejo do 20º aniversário. Hoje em dia não é, no entanto, algo de necessariamente negativo. É que o retro está na moda.

5.3.08

Isto hoje dá para tudo

Pacheco Pereira director do Público no dia em que comemora o 18º aniversário. O jornal, digo. (Ao atingir-se a maioridade deveria ter-se direito a um pouco mais de dignidade. Como eu, por exemplo, em que no primeiro dia das minhas 18 Primaveras enfiei-me logo no bingo da Briosa com o BI em punho)
Um Luís Filipe Menezes parcialmente sincero: "PSD ainda não merece ser Governo, PS já não merece".

Ah, a saudade, esse nobre sentimento

O João Morcela, em conversa com um amigo, confidencia-lhe: "já não vejo o Luís há tanto tempo, com certeza há mais de 7 ou 8 anos. Gostava de o ver. Havia de lhe ligar, mas também, quem é que o mandou ser 91?"

4.3.08

Duas ou mais semanas seguidas ao Porto? Seja.

Depois de já tanto ter ouvido falar nas belas conferências desta senhora, é chegada a hora de atestar a veracidade da coisa. E Baumann. Logo de caminho. Critique-se o contemporâneo. Apontando na agenda, claro.

Ao largo #4

Ontem, em Coimbra, esteve Ricardo Araújo Pereira a apresentar o seu "Boca do Inferno" a convite da iniciativa Os Livros Ardem Mal. O que surpreendeu muita gente. Nomeadamente quatro rapazinhos que, assim que se aperceberam que aquilo não era nenhum espectáculo ou sketch dos Gato Fedorento, se apressaram a descer as escadas e voltar para a rua largando impropérios: "Mas saí eu de casa para esta merda? Livros?! Mais valia ter continuado o meu Call of Duty 4!"

29.2.08

Simone


Fotografia: www.macua.org/biografias/images/simoneol.jpg

Embevecido e arrepiado. A entrevista de Simone de Oliveira ontem à noite na Grande Entrevista foi um pico nos momentos de televisão que vi em tempos recentes (Dos poucos, também, mas isso não retira qualquer mérito). A indiferença, talvez por a ver há tantos anos nestas lides, trouxe o desconhecimento de muitas facetas da vida da artista. É uma dessas cantoras decrépitas apaparicadas pela comunicação social, pensava eu. Quão enganado estive este tempo todo. Mea culpa.

A verdade é que (não sabia mesmo) Simone tinha um vozeirão. E é uma mulher, uma grande mulher. Daquelas que dão presença, alma, e um arrepio na espinha. Uma presença magnífica. Uma senhora presença. Uma mentalidade progressista. A doença. O marido. A vida. A homenagem aos/às desconhecidos/as. As novelas. O aventar ali, em frente à Judite, de um conjunto de pressupostos e realidades acerca do país e das pessoas que nele vivem. Simone teve ainda tempo para romper com os paninhos quentes e atacar quem é contra a utilização do preservativo nos tempos em que vivemos (Apenas interrompida pela Judite). Simone deu cartas em vinte minutos, meia hora, quarenta, não faço ideia. Também não quero saber. Precisam-se de mais Simones em Portugal. Não. Portugal precisa de mais Simones.

Simone prestou ontem uma homenagem a quem sofre ou sofreu de cancro, aos pequenos nadas que se perdem com a morte de alguém próximo, a quem canta, a toda uma sociedade mas, acima de tudo, ontem Simone de Oliveira prestou homenagem a todas as mulheres. Um hino. Aplaudo de pé.

27.2.08

Depende do caudal

Acho que podemos estar relativamente descansados quanto ao decrescimento da economia na UE desde que se consiga continuar a passar multas à Microsoft.

Saber curvar ao belo



Ser, estar, querer ser diferente, querer estar diferente, fazer, não fazer por isso. Sentir assim. Tão só assim. Diferente.

Thinking of a world and the light of the sun
And all the many lives that were ever begun,
Ever begun.

Our little world turning in the blue
As each day goes there's another one new,
Another one new.

How many people will we feed today,
How many lips will we kiss today,
If we wake up?

How many worlds will we ever see,
And how people can we ever be,
If we wake up?

Thinking of a world in the light of the sun
And all the many lives that were ever begun,
Ever begun.

25.2.08

Do determinismo biológico ao fim do preconceito



E o SP, ali ao cantinho?

21.2.08

Nivea Lift ou da textura da roda

Entre outros pormenores, compreendemos que estamos a ficar velhos quando temos que fazer no registo de qualquer site um scroll extra para chegar ao nosso ano de nascimento.

Impossibilidade

Algumas palavras saem sempre melhor cantadas. Poderia estar horas a dizer-te algumas delas, mas não me soam bem, não me saem bem. É que não sei cantar. Adiciona-se a melodia ao sentido, força-se a maior densidade, ao melhor toque, pode ser que resulte. Posso dizer-te milhentas vezes como me senti ao escutar o violino na praia, numa noite de S. João (ou St. Joan, como dizem lá), e de como ao falar, ao pensar alto, em ti, a voz já não parecia tão fora de mim, estranha e descontextualizada. Mas garanto-te que pensei, no "nós". Garanto-te que passaste entre aquele ar frio, húmido, umas cordas já desfiadas, grãos de areia em tudo quanto é lado e umas cervejas bem aconchegadas. Lembro-me também que me cortei ao tirar umas azeitonas com anchovas da lata. Podia enganar-te, a bem da beleza da história, e dizer que havia uma fogueira, crepitante (palavra que adoro, bem sabes), e uns petiscos a assar. Não, não houve fogueira nenhuma, nem petisco. Nem muito bem-estar, na verdade, para além da música e das palavras, que já não saíam tão duras e agrestes. É que estava um frio do caralho. Ainda assim, pensei em ti, o tempo todo. Juro.

10 Pocket

Como dizer? O João Morcela é daquele tipo de pessoas que só põe os óculos de sol dentro de casa para tirar fotografias e as meter no Hi5.

Teatro de intervenção

Apresentou-se-me de câmara na mão, roupão e naperon na cabeça. Abraço afagante, a peça, que parecia ter sido suspendida enquanto tocou a sineta para abrir a porta, continuou. Com outra no meio. É sempre assim. Tantas peças, os mesmos actores. Parece que é a mesma companhia que as produz. O palco, sempre improvisado. Lembro-me: é sempre mais difícil representar para quem conhecemos e nos conhece bem que para desconhecidos, e desconhecidas. Não é o caso. O cravo, saído de umas Creative SoundBlaster, estava entregue a mãos divinas, e a um leitor de MP3, dos bons. Que por acaso está na minha posse. Não havia ninguém a dar palmadas e a corrigir a postura, apenas a descorrigi-la. À grande. Mas isso também não interessa nada. Importantes fomos nós, e o William, e o Jacques. O resto são favas contadas, ou melhor, narradas.

Viagens

O couch surfing é um conceito óptimo . Arriscas-te é sempre a que te roubem alguma coisa. A carteira, o relógio, ou um órgão, por exemplo.

11.2.08

See ya around, old chap

Agastado, espalha, dentro do possível, as últimas gotas de tinta disponíveis. Por ali passaram nobres palavras, imagens cinzentas, escritos de ciência. Resta pouco. Um ou outro diapositivo, um ou outro artigo de jornal, uma mensagem. Fico sempre nostálgico cada vez que troco de toner.

9.2.08

Com selo de qualidade made in Coimbra

8.2.08

O sentido dos mundos

Diz Henrique Burnay, no 31daarmada, que,

Com certeza que, das duas uma: ou Henrique Burnay não vive no Alentejo e está a mandar bitaites sobre uma realidade que desconhece profundamente, por lá passando de quando em vez, dentro do veículo olhando de cima para baixo essas aldeias perdidas, ou, vivendo no Alentejo, não se apercebe da miséria económica e cultural em que está aquela região. E de facto parece-me até que em nenhuma destas duas opções Henrique Burnay teria razão. Mas detentor de uma sapiência alentejana que me permite alvitrar dois ou três apontamentos sobre o quotidiano daquelas (que são as minhas) gentes, digo:
É de mau tom fundamentar uma incompreensão e birrinha pessoal "ao amor do Estado pela saúde" porque não se pode sacar do cigarro num café utilizando como experimento para observação uma amostra dos homens alentejanos a fumar e a beber minis e suas mulheres em casa - ou na cozinha -. Pobres dos homens alentejanos? Não. Pobres daqueles que, em altivez, não conseguem, não querem, não podem ver o que é que por ali vai. Mas eu digo o que por ali vai:
Vai uma região com o maior índice de suicídios per capita do país;
Vai uma região onde os miúdos (não são só alguns, são todos) fumam e bebem desmesuradamente, sendo que alguns deles com 21 ou 22 anos parecem ter quase 30;
Vai uma região onde não existem empregos para lá do campo ou "das vendas";
Vai uma região onde existe um índice inaceitável de analfabetismo num país, europeu, extra-europeu, seja de onde for, you name it.
A tentativa de romantizar os velhos, tristes, calados, sentandos nos seus banquinhos, só porque os fizeram ir fumar para a rua, não podia ser mais desajustada. Primeiro, porque um alentejano nunca se separa da sua mini. Segundo, porque nesses sítios a vida, tão mais difícil, é também tão mais simples. Terceiro, porque romantizar é, no geral, querer aniquilar qualquer pensamento crítico e de mudança. É a mesma coisa que ir à Índia, ver vacas no meio da rua, pedintes por todo o lado e dizer "coitadinhos", sabendo, no âmago, que não é por vontade delas que acordam com bostas à porta de casa. Fosse o cigarro no café o maior problema.
Por fim, dizer que a mim, não fumador activo, desde 1978 até ao início deste ano, nunca ninguém me tinha perguntado se havia ou não problema em ir a um café e ficar com os pulmões, e já agora, a roupa, impregnados de tabaco queimado. Lamento profundamente, isso sim, que se tenha criado uma lei com tantas excepções que, ao fim e ao cabo, está a levar à reimplantação dos fumos em todo e qualquer local de restauração. Não se faz nada a sério, por cá.

28.1.08

Chamamentos (ou da inverdade na ficção)

Custa a acreditar. Nas séries de terror, os fantasmas, as almas, os não-vivos, enfim, são sempre chamados por uma qualquer prece em latim, Omnimus sirigaitis etcaetera et pluribus unum primus inter pares in nomine caesaris, e mais minuto menos minuto, lá estão eles a responder, invariavelmente, ao chamamento. Armados até aos dentes, ou apenas com um mau feitio muito grande, já se sabe que alguém vai morrer afogado, com uma enxada na cabeça ou com os pauzinhos do chinês enfiados pelas narinas acima. Contudo, creio haver aqui dois contra-sensos básicos:

Por um lado, se eu tivesse que chamar um fantasma a partir de um livro escrito em latim, com certeza que haveria falta de comparência, obviamente penalizada com três pontos negativos, pois a minha leitura do mesmo seria tão risível e incompreensível que as alminhas re-morriam a rir em vez de vir matar alguém. O que, claro, nos traz à questão: porque é que respondem sempre aos amaricanos, que quando os ouvimos a falar parecem uns leitõezinhos simpáticos a grunhir enquanto têm vitaminas para desfazer por baixo da língua?

Por outro, pergunto: será que têm mesmo que responder sempre à convocatória do seleccionador? Para assassinar, na esmagadora maioria dos casos? Não podem eles ficar descansadinhos, na sua meia-vida? A fazer tricot, jogar damas, qualquer coisa do género? Pede-se um pouco de respeito pela liberdade de opinião e comportamento de qualquer género de entidade. Até parece. Quando me chamam para ir comer a sopa, em português bem explícito, isso não quer dizer que eu vá logo feito cachorrinho já com a colher na mão, pois não?

Deve ser com Fairy Ultra

Pode não saber o que está a perder, mas para quem este trabalho é "tão pesaroso como lavar copos ressequidos com mokambo", não se porta nada mal.

25.1.08

Perspectivas

Não sou incompreensível. Sou, isso sim, incompreendido.

Bom dia

24.1.08

80%
Jovem, adulto, jovem adulto, meia-idade ou sénior (que hoje em dia não se pode dizer idoso, é sénior. Muda-se a palavra, a atitude com a velhice permanece a mesma, i.e., uma merda), permite-me o tratamento familiar: se gostas de emoção, cultura, novidade, novidade na cultura, e precisas de mudar de ares, NÃO venhas viver para Coimbra. Vai para Estarreja que tem uma política cultural de maior visibilidade a nível nacional. No entanto, se, por qualquer infelicidade, acabares por te arrastar até à Lusa Atenas, ou mesmo se nada tens que te relacione a esta, subscreve, num acto de cidadania pura, este texto para acabar com a letargia vigente da cultura na CMC.
p.s. 80% é a percentagem de redução do orçamento dedicada à cultura na CMC de 2004 até hoje.

22.1.08

Não dá para perceber*

No final do jogo do Porto para a taça o Quaresma atira contra tudo e todos, manifestando o seu desagrado quanto aos assobios, aventando ainda a hipótese de "no fim da época já não vão ter que assobiar. Vamos de férias".
O adepto sportinguista, talvez até o benfiquista, pensam, esfregando as mãos de contentes: "porreiro pá (sem referências ao abraço), o gajo vai-se embora."
Mas o que o adepto sportinguista e benfiquista se esquecem é que aquilo não é o Sporting nem o Benfica. É o Porto. E no Porto não se brinca. O Quaresma desagradado? Não pode ser. Renove-se-lhe o contrato e adquira-se o resto do passe. And that's that.
*Na verdade, dá. Perfeitamente.

Forget about tonight. Forget it. (Jimmy Conway (Robert de Niro) em Goodfellas, realizado por Martin Scorcese)

Na cena em questão, um jogo de póquer among goodfellas, Jimmy Conway diz a Henry Hill (Ray Liotta), em surdina, para esquecer o plano que tinham orquestrado para essa noite, o assassínio de Morrie Kessler (Chuck Low). Faz pensar o monólogo que se segue, no qual Henry reflecte acerca da vida de Morrie, dizendo que este nem fazia ideia de que a sua morte esteve por um fio, por uma palavra, e aquele, ali, alegre e inocentemente, jogando às cartas.
A analogia é simples. Deveríamo-nos preocupar mais com aquilo que desconhecemos que com o que está no nosso conhecimento, tomado como certo e, qual extrapolação idiota, no nosso controlo. É assustador tentar compreender o incompreensível. Aquilo que não depende da nossa vontade.
p.s. um pequeno aparte. Morrie acabou mesmo por ser assassinado nessa noite.

21.1.08

"Então e porque é que não se proíbem as lareiras?" Fátima Campos Ferreira no Prós e Contras acerca da lei do tabaco

O José Sá Fernandes não está a ser demagógico. Não. Não. Não. O José Sá Fernandes é fumador. O José Sá Fernandes não sabe a fórmula do monóxido de carbono. O José Sá Fernandes não faz ideia sobre o que está a falar. O José Sá Fernandes é mal-educado. A senhora que está sentada ao lado do José Sá Fernandes não é demagógica. Não. Não. Não. A senhora que está sentada ao lado do José Sá Fernandes não dá uma para a caixa.

Poupem-me.

Ainda por cima estou a ficar mesmo irritado com isto.

O Francisco George é um senhor. Sabe muito.

A senhora parece que se chama Fátima Bonifácio e, a meio da segunda parte, acabou de dizer que já não lhe apetece discutir mais pois já expôs a sua posição. E recuperou a história das lareiras da Fátima Campos Ferreira.

16.1.08

Eppure si muove

"Tinham já chegado a tal ponto que, se alguém se detinha a escutar os seus projectos sem se rir, em vez de ficarem contentes, lançavam-lhe olhares de esguelha, não de desconfiança, mas de ódio. Porque o escárnio dos outros tornara-se o ar que o seu sonho respirava. Se lhes faltava o escárnio, corriam o risco de sufocar"

[Luigi Pirandello, Um, Ninguém e Cem Mil, p. 74]

12.1.08

Não é suposto ser assim

Entre um café e um cigarro, lá fora, como é óbvio, converso com um amigo acerca da (de difícil compreensão) durabilidade saudável de Manoel de Oliveira e de como aos 99 anos acabou de lançar outro filme. Contudo, o que me abalou mais foi ouvi-lo, à conversa com o Carlos Vaz Marques na TSF, assegurar que tinha outros projectos na cabeça.

11.1.08

Oh mon Dieu, c'est magnifique


Imagem: http://www.webboom.pt/ficha.asp?id=167270

Surgiu-me inesperadamente o nome de P. G. Wodehouse na “Avenida Paulista”, de João Pereira Coutinho. Por ocasião da época natalícia, propôs-se-me oferendar um exemplar a um amigo, dada a fonte segura da referência. Aproveitei para deitar os olhos nas linhas que o compunham. Surpresa e assombro. “Bom dia, Jeeves. Bom dia, senhor. Esta resposta surpreendeu-me. É, de facto, ainda manhã? É, sim, senhor.” O personagem principal apresenta-se-nos com uma ressaca monumental, divina e comicamente caracterizada. A cadeira oscilou, a expressão abriu qual flor na Primavera, e por ali adiante prossegui. Sem contemplações, sem dificuldades, fácil, é tão fácil. É riso, é gargalhadas, muitas, de todo e qualquer género. O Humor, fino, refinado, delicado, apropriado (nem sempre o melhor humor é o apropriado, e vice-versa), sinérgico à dinâmica absorvente. As metáforas, deliciosamente inescapáveis, muito à frente do seu e do nosso tempo. Com “Bertie” Wooster e Jeeves, o seu mordomo, companheiro de todas as horas, título honorífico “braço direito”, tudo é inesperadamente simples, delicioso, cúmplice.

Deste último, dizer que é detentor de uma retórica e educação irrepreensíveis, classe inigualável, imemorial, adequado, subtil, eloquente, ocasionalmente genial. A frase certa na altura certa, a citação apropriada à situação. Procura o engrandecimento cultural do seu amo que dá pelo nome de Wooster, Bertram. Este, dandy, classe média-alta, apreciador dos pequenos grandes prazeres da vida, capaz de se submeter aos maiores reptos para aceder a uma excelente e gratuita refeição, de fracas leituras mas altos valores morais (dependendo do ponto de vista), atribuía a frase “Eureka” a Shakespeare. Basta dizer que persegue, ao longo da narrativa, uma nateira de prata em forma de vaca para que não se perca o magnífico cozinheiro da casa de sua tia. Um universo aristocrático, normalmente associado a um certo cinzentismo e languidez, no qual Wodehouse foi capaz de depositar as maiores comédias.

Creio ser esta a primeira vez que escrevo sobre um livro não relacionado com trabalho. Acabei-o há pouco e já estremeço por não ter uma outra história de “Bertie” ou Jeeves disponível por perto. A Amazon já se afigura, todavia, como âncora a breve trecho. À deles!

“-Jeeves!

-Senhor?

-Mais brandy!

-Muito bem, senhor.

-E acaba lá com isso de o servir em cálices pequenos como se fosse rádio. Traz o casco.”

8.1.08

Qual quê amigo, não há problema nenhum

Tenho algumas dificuldades em entender como é que o Armando Vara consegue manter dois lugares de gestão, um num banco público e outro no privado (CGD e BCP, bancos concorrentes) quando eu nem posso passar um recibo verde para ganhar 300€ a mais.
Uma pequena atençãozinha também para o pagamento, em suaves prestações mensais e durante 14 meses, de 9 euros decorrentes dos acertos a algumas pensões. Que felizes devem ter ficado os velhotes.

6.1.08

Dakar

A suprema ironia é que aquele anúncio da Galp em que Carlos Sousa e seu co-piloto galgam umas dunas a pé acabou por não ficar assim tão distante da realidade.

4.1.08

Resoluções de Ano Novo #2

Começar a escrever a sério num blog. Ou começar a escrever num blog a sério.

Resoluções de Ano Novo

Refilar. Refilar. Refilar muito com quem normalmente ninguém refila. Em dois dias pedi duas vezes a rescisão de contrato com a Netcabo. Nesta sequência, consegui uma mensalidade totalmente gratuita do telefone com chamadas grátis para todas as redes fixas (para a mãe ligar aos avós) e ainda um desconto de 8,5€ na factura da Net. Isto para além do já antigo desconto de 5€ no pacote clássico.

O próximo passo é tentar rescindir com a TMN. Desejem-me sorte.

18.12.07

E ninguém refila

Se a idade da reforma aumentou dos 60 para os 65 anos, porque é que o Cartão Jovem não passa a abranger até aos 31 em vez dos actuais 26?

São recorrentes, relativamente regulares, e o mais curioso é que toda a gente nos diz "eu não vi, mas tenho um amigo que viu!". E mais, garantem-no. "É verdade!" Falo de mitos de longa data como, por exemplo, o célebre caso do Ricky Martin num armário e a manteiga de amendoim, de um programa com casais onde se perguntara a uma dupla concorrente qual o último local onde tinham feito o amor, enfim, vocês sabem muito bem do que estou a falar. Outro desses mitos é também o facto, ou os factos, pelos quais os americanos não gostam de soccer. Ora, andava eu à procura de uma fotografia do Karate Kid para ver no que é que ele se tinha transformado (faço-o frequentemente com personagens da minha memória) e dou de caras com um blog americano sobre desporto, cujo post e citação neste blog se devem ao Mundial de 2006 na Deutschland. E eis que, finalmente, se fez luz sobre o que pensam, ou no que pensam, afinal (ou pensa só aquele), do desporto-rei, onde está o mito e a verdade, o que vale um fora-de-jogo, a tirania praticada por um árbitro com os descontos ou o "deixa-me cá mandar-me ao chão que os gajos estão com uma jogada de ataque perigosíssima, pode ser que um tanso mande a bola para fora". Vale a pena ler o texto na íntegra:

"The US does none of that. Their typical offensive "set" - if thats what you call it - goes something like this (or at least this is what it looks like to someone who doesn't know to much about futbol): Kasey Keller takes the ball out of the back of the net and sets it down on the ground. He then motions to four or five of his teammates, apparently positioning them for a long pass, and then proceeds to boot the ball the length of the field to no one in particular. Hopefully, someone from the opposing team knocks it out of bounds, and the US gets a throw-in. That really seems to be our best bet. If that somehow happens, we throw it in, screw around with the ball for as long as we can, play it back, play it back, play it back...and then find a way to get it to the other team as quickly as possibly. Rarely we'll get a shot off - if we do, it generally sails fifteen to twenty feet over the goal (honestly, if the goal was 30 feet high, the US would have destroyed Ghana. Like 7-2) . Then we play defense."


Ansiedade


Imagem: http://www.estadao.com.br/fotos/beemovie2.jpg

14.12.07

Alta cultura


13.12.07

Amigos? Conhecidos?

Que mania têm as pessoas de enviar e-mails -nomeadamente a mim- com pinturas sagradas, e anjos e santos, e diabos, e sustos, e powerpoints foleiros ameaçando-nos de que se não reencaminharmos aquilo a xis pessoas dentro de ípsilon (por acaso, amanhã tenho que comprar o Público e jogar no Euromilhões) dias teremos um azar catastrófico a bater-nos à porta. Gente que envia esses e-mails, um aviso a bem da pacífica vida social: a única coisa que se ganha com tal comportamento é, quando nos encontrarmos de facto, em pessoa, já não haver paciência nenhuma para vos aturar, tão grande é o trauma de perder tempo com azelhices dessas. Além disso, nem quando era criança fui amigo de alguém que me aplicasse as mais variadas e determinadas manobras de coacção, inclusivamente não ser convidado para festas de anos. Nunca fiando, vou andar com um terço pendurado no retrovisor do carro e um santinho na carteira.

10.12.07

Esclareçam-me lá

porque é que nunca conheci uma única rapariga gaga?

6.12.07

Pero este no es un post de mierda, señor Chavez. Lo aseguro.

El señor Chavez acaba de clasificar a la victoria del "no" como una victoria de mierda. Y más, lo dice sin cualquier tipo de problema. Y a mí, si dijera mierda en una circunstancia normal, me maltratarían en dos tiempos. Tiempos raros, no? Mirad:


A grande capitalista

Ela dá-se com toda a gente, e mais, sabe dar-se a toda a gente. Homens novos, mulheres velhas, homens velhos, mulheres novas. Pais, mães, tios, bancárias, investigadores, professoras e professores, funcionários. Ela trata toda a gente com respeito, lançando aqui e ali um piropo mais ou menos conseguido, num olhar a dar para o quase vigoroso. "Meu lindo", "minha linda", "olhe aqui, tão lindo como você". Como resistir a isto numa dura manhã de Dezembro, fria e cortante? Impossível. É assim que se faz a grana. Sacando, a pouco e pouco, aquele sorrisinho maroto, ou amarelo, aquele sorrisinho em que já não se consegue dizer que não. De qualquer forma, a coisa pega. Com um modus operandi tentacular e um conhecimento ímpar em cada uma das áreas, uma estratégia microsoftiana (com r de marca registada aqui no canto superior direito), ela chega à Matemática, à Física, à Química e ao Direito, deixando ainda o seu travo na Medicina, na Biologia e na Geologia. Ela domina todos os campos de investigação e faculdades, ela é omnipresente. Ela é a senhora dos bolos de Ançã.

4.12.07

Superioridade (I)moral

Uma das coisas que se afigura cada vez mais como certa é que as verdades e as mentiras, mais cedo ou mais tarde, mais ou menos camufladas, mais ou menos verdade, ou mais ou menos mentira, acabam sempre por fazer ricochete. O resguardo faz-se rápido, por vezes, mas não o suficiente. Frequentemente porque o colete anti-verdade, ou anti-mentira, dependendo dos casos, não se compadece, pois falta-lhe a resistência necessária para deter o mais forte de todos os projécteis, a dor de quem foi baleado.

3.12.07

O azar

A próxima acção da ASAE vai ser proibir os bolos de aniversário devido aos comportamentos anti-higiénicos e eventualmente nocivos das pessoas comerem da iguaria para a qual os aniversariantes sopraram.

29.11.07

Quatro vintes e dezanove



Keep your head up


Longos dias, duros dias

É uma operação difícil, complexa, impossível, a bem da verdade. Quando a vida o exige, é o que por vezes se tenta fazer. A fresh start. Vai-se às opções, apagam-se os cookies, a memória em cache, as palavras-passe e o histórico. Todos determinantes, tudo o que nos disse algo, o que nos construiu, o que somos. Mas por vezes, apesar da dor e da dificuldade que exige, é mesmo a única, talvez triste, com certeza triste, maneira de conseguirmos ser felizes de novo. Mas não queremos apagar tudo, não podemos apagar tudo. Por respeito, por saudade, por uma dor que não passa, porque retiraria sentido a todo o resto. Porque somos tudo isso. E porque não pode ser, não pode ser, pronto, ponto. Não existem outras opções, mas não me resigno, não me posso resignar. Não seria justo. Nada disto é justo. Hoje, sou mais amargo, tenho mais amargo. Nem um bocadinho.

Tenho tantas saudades tuas. Temos tantas saudades tuas.

28.11.07

No need to run away


Foto: Carlos Barradas. Título à conta deste senhor.Clicar para aumentar.

26.11.07

O primo da seringueira

Os pequenos, cónicos e arredondados resquícios em tons acizentados estavam espalhados por cima da secretária, irregularmente, conspurcando o tampo. E eram tão difíceis de remover. Estranho, dado que tinha fortes hábitos de limpeza impregnados. No seu corpo e nas extensões deste. A roupa, sempre lavadinha com um toque de amaciador no final, cheirinho a lavanda, bem engomada, e o monitor, sempre límpido e cristalino cada vez que iniciava uma sessão, onde ao pedido de palavra-passe era digitado "macramé". Sem dúvida, tinha estado a apagar algo de um livro, ou de uns livros. A senhora da limpeza, chegada às seis e meia desta segunda-feira e apanhada de surpresa por encontrar aquele chavascal, nada costumeiro naquela mesa, suspirou "há gente do pior, nunca se sabe o que esperar das pessoas". No entanto, há já três dias que ninguém sabia do Jaime. Uns diziam "eclipsou-se", outros, que tinha "desaparecido do mapa". Procuraram-no o fim-de-semana inteiro. Nada. Sem o saberem, estavam próximos da verdade. O Jaime, de tanto ímpeto que metera em apagar as linhas de um livro que tinha que devolver na biblioteca até às 19 pos meridian sob a ameaça de pagamento de uma multa de 0,67€, tinha-se apagado a si próprio, tendo começado, acidentalmente, no meio indicador esquerdo (não meio, na verdade só tinha perdido a falange) que ainda mantinha depois de perdida a outra metade, quando um esquilo queriducho o arrancou, juntamente com a avelã que ele cuidadosamente guardara no bolso superior do paletó, remanescente de um saco de frutos secos sortidos oferecido pela madrinha Doritas, da Baixa da Banheira por ocasião do 37º aniversário do seu baptismo na Igreja de Sernancelhe. Mas o Jaime era, acima de tudo, conhecido por ser um tipo altruísta. Facto que não se comprovara nesta última página da sua vida. Não tinha, até dado momento, apagado toda a sua história, mas o horror de enfrentar mais uma vez aquela bibliotecária que lhe parecia querer arrancar a cabeça de cada vez que entregava um livro depois do prazo foi o suficiente para ainda deixar escrito num post-it cobarde,

"Por favor devolvam o livro à bibli t

22.11.07

Sobre o bem-estar (cont.)





Sobre o bem-estar

O Sr. Prof. Simon Chadwick, da Coventry Business School, esqueceu-se de dizer: "Os campeonatos anteriores demonstram igualmente que a produtividade dos trabalhadores geralmente diminui a partir do momento em que se sabe que a selecção de Inglaterra vai defrontar a selecção de Portugal. É aqui que se começa a instalar o factor mal-estar".

20.11.07

A noite do fim do ano

foi, como todas as anteriores de há larga data a esta parte, categoricamente incluída no tópico "noites etílicas". Numa das últimas, já o saldo do telemóvel se tinha esgotado em votos de bom ano e muita saudinha, quando um casal amigo, no meio de fraternos abraços, tombou de umas escadas com cerca de 2 metros de altura numa calçada. Pânico generalizado. Chama-se o 112. Por alguma razão, à minha chamada é-me respondido que há que carregar o telemóvel, facto desde logo incompreensível dado que para ligar o 112 é gratuito.
Por acções que não as minhas, a ambulância lá chegou e levou os amigos, combalidos. Tudo impecável, passadas duas horas, com gaze e betadine, voltaram para a festa. Sem álcool.Só no dia seguinte, à tarde, e olhando para os números marcados, me apercebi que tinha estado a ligar ansiosamente para o 118 (informações).
Isto para dizer que essa gente que faz chamadas anónimas e falsas para o 112 devia era levar com uma marreta na cabeça durante um ano, já que se algo de mais grave se tivesse passado e não houvesse meios disponíveis para os socorrer, eu próprio me encarregaria de ajustar contas (não naquela noite, especificamente). Aliás, uma boa medida para acabar com essas chamadas era precisamente o INEM doar os números de telefone a quem sofreu directamente esses efeitos por vezes nefastos para se aplicar a bela da justiça popular. Siga.

A época

Luzinhas, esparsas, ligeiras centelhas difundidas por um manto post mortem da temporada estival. Cantares com panos à cabeça que atravessam as planuras retalhadas, as mulheres contratadas para a azeitona, varejam, varejam, escoradas por escadas de madeira e pelos êros que irão receber sobre os panos estendidos, manchados, que tantas épocas já fizeram.

17.11.07

Pré-Natal

Sim, o Natal está aí à porta, ou ao portão, melhor dizendo. Os casaquinhos começaram a sair dos armários, das caixas, fechadas, por baixo dos sommiers. São postos a arejar e compram-se batons para o cieiro (porque é que não se chamam batons contra o cieiro?). Os aquecedores, atrás da porta da despensa, são recuperados para as salas que não são abençoadas por lareiras, e o ritual cumpre-se. Ou cumprir-se-ia. É que, nesta pré-pré-pré-época de Natal, com os centros comerciais já enfeitados por Pais do mesmo, pinheiros com supostos flocos de neve, luzinhas, metros e metros de luzinhas, e trenós, a fantasia não se propaga para fora dos malls. Porque assim que saímos daqueles, está um sol de arrasar com 24º de temperatura ambiente.

16.11.07


Inverdades


O odor à terra saturada de água, o verde que há muito revezou o pasto seco, quebradiço, em tons acastanhados. A água, ainda moça e envergonhada, conduzida pelo ribeiro, transpõe com dificuldade as sinuosas e delicadas barreiras da terra áspera, pontuada aqui e ali por alguns girinos que nela se fazem viver. Nos dédalos dos olivais e das herdades, fungos que já viveram tudo a que tinham direito, cumpriram o seu ciclo e abandonam, com cores já esbatidas, os campos onde a partir de agora serão gerados outros seres e outras vidas. Tudo o que aqui está dito já foi outrora verdade. Hoje, agora, não o é.


14.11.07

Estou no sítio certo

mas com o livro errado, caríssimo. O repto é óptimo, mas constato que o parágrafo que contém a 5ª linha da dita pág. 161 do livro que neste momento leio, é o último do mesmo [Pirandello, Luigi ;Um, ninguém e cem mil]. Ele há coincidências. Ora, este é um exercício belo, mas complicado. Há largos anos (pelo menos 2) que tive que me forçar a perder o hábito de saltar 80 pág. para descobrir o fim de um livro, seja de culinária, seja de fotografia, estes últimos reservados para os aziagos dias de chuva (que actualmente desapareceram). Mas regras são regras, e eu sou um abelzinho que só joga dentro das quatro linhas:

"Pensar na morte, rezar. Ainda há quem tenha essa necessidade, e os sinos dão-lhe voz. Eu já não tenho essa necessidade, pois morro a cada instante, eu, e renasço novo e sem recordações: vivo e inteiro, já não dentro de mim, mas em casa coisa fora de mim."

Passo a corrente à Cris e à Confraria, que é um três em um.

Vazio

Agora que o governo conseguiu a aprovação da tão famigerada lei que permite a um aluno faltar às aulas a seu bel-prazer, i.e., gazetar (penso que o termo ainda será utilizado), que fazer ao espaço em branco deixado pelo famoso Gazetómetro? Aqueles alunos artistas que na escola se gabavam de ter já 8 faltas a Matemática, 5 a Química e 6 a Inglês (a prof é uma tolinha), que estavam quase a chumbar e cujos quadradinhos preenchidos com cruzinhas não enganavam, onde poderão agora ir reclamar esse artífice da masculinidade juvenil?

9.11.07

Isto está mesmo mau...

é que só agora, 17 minutos depois, me apercebi que não era preciso trocar os "e"s por "i"s para engenheiro ser uma profissão com "i". Talvez seja melhor parar de trabalhar por hoje. Espero que estejam a dormir bem.

Melhor ainda...

é que passados dez minutos ainda me estou a rir que nem um perdido.

Quando à noite...

o cansaço aperta, a estupidez vai logo atrás. Estava aqui a ver o famoso programa da TVI "Quando o telefone toca" ou lá como aquilo se chama e a beber um copo de leite fresquinho. É tarde. O tema de hoje é profissões com a letra "i". Lá figurava arquitecto, pedreiro, médico, intérprete, contabilista. "Profissões com "i"?" Fácil, pensei eu. "Inginheiro."

5.11.07

Way beyond



Tanto estilo perturba-me, a sério.

O Agente infeccioso

Estava a braços com uma virose. Forte, incapacitadora, desmemorizante, que o ia tornando numa pessoa inconformada. Não conseguia aceder a todas as realidades da vida diária que moldavam a sua existência antes do incidente. E não se conseguia ver livre dela, mesmo com todos os anti-virais existentes no mercado. Inconformado estava também com o que ela, a sua mulher, lhe tinha feito. Ainda se recordava de todo o mal que lhe tinha inflingido. Resolveu enviar-lhe uma mensagem do site da tmn, que é à pala. As palavras, ásperas, ressequidas, rugosas, estavam prontas para ser enviadas. No preciso momento em que se preparava para premir o Enter, deu-lhe o tilt. Mensagem não enviada. A virose tinha dado cabo dele, do computador. Teve que formatar o disco. Mas a questão manteve-se: formatado o disco, devia ele agora aproveitar para formatar a vida?

3.11.07

Aceitam-se sugestões para:

Uma cor nova para os títulos dos posts


Uma cor nova para os títulos dos posts

Uma cor nova para os títulos dos posts

Uma cor nova para os títulos dos posts

Uma cor nova para os títulos dos posts

Uma cor nova para os títulos dos posts

Uma cor nova para os títulos dos posts

O impacto que uma coisinha destas devia ter:

Enviar 50 sms, indiscriminadamente, para 50 números de telemóvel (de preferência não da nossa lista telefónica) com os seguintes dizeres:

"Volta para mim meu amor, tenho saudades de te ter nos meus braços, de te acariciar, de te depositar os meus beijos e olhares. Por favor, quero-te perto de mim".

26.10.07

Putin que pariu mais à матрёшка*

Está uma pessoa a almoçar e aparecem os três. Um, de calças arragaçadas, pronto para apanhar ameijoa ou percebes ali na costa alentejana. O outro, ar gingão, comprometido, com ar de матрёшка (o que é a mesma coisa que Matryoshka, ou Matrioska, ou Mat...lá tenho eu que abrir outra vez o separador da Wikipedia para ver como é que se escreve), sem se mexer muito, qual "Zé sempre em pé" a pensar que raio faço eu aqui ao lado destes meninos que ainda falam em democracia e direitos humanos. Por favor, que ridículos. Mas este Convento de Mafra, sim senhor, que coisinha bonita e agradável. Deixa cá ver se oriento aqui um item à maneira lá pra casita na Chechénia. Olha que estes gajos não se safam mal. Faltava o Zé Manel, porreiro pá, tudo tratadinho, à maneira, arzinho de texugo bem cheinho. Impecável.

Dezenas de cidadãos ucranianos, moldavos e russos que vivem em Portugal, muito felizes por poderem ver Vladimir Putin, concentraram-se junto aos cordões de segurança impostos pelas forças da ordem diziam os jornalistas. Pois, muito felizes porque vivem cá. E por estarem do lado de lá do cordão.

Um pequeno apontamento: fico contente que a Sic Notícias pense nas pessoas e confie nas suas extraordinárias capacidades intelectuais deixando-nos ouvir um russo perfeito durante 20 minutos, mas como ainda só sei dizer o meu nome naquele idioma, que é B. com um acento assim estranho, preferi ouvir o discurso traduzido na RTPn. Só por uma questão de raciocínio.

*Matryoshka, ou Matrioska, ou Matriosca.

23.10.07

Vitória (i)moral, vitória (im)oral

Renhêda. Peço desculpa, não me surgiram outras palavras.
Só esta.
Polga, que falta fizeste...
Mas que merda é aquela? A bola de um lado ao outro da área a passear por ali, uma e outra vez, volta, diverte-se. Porra. Passa por cima, passa por baixo. Salta. Desce. Rola. Chuta, não chuta. Parecia uma equipa de pessoal com disfunções motoras.
O Abel, um abelzinho. Abel, escuta: na Champions, com jogadores que valem dez vezes mais que tu, não se inventa, manda-se para fora. A bola jogável fica para mais tarde. Deixa lá, à custa de uma lição lá se foi mais um pontito. E estavas a jogar tão bem. Siga.
Gladstone, esteve lá? Djaló esteve lá? Paredes esteve lá?
Tiago, sim esteve lá. Ou não quando devia estar. E notou-se bem. É tramado, mas esta época estás acabado. Então passamos anos a ver se o Ricardo se começa a sair bem aos cruzamentos e fazes exactamente a mesma merda? Ou aprendeste com ele ou não estavas nos treinos quando estavam a explicar ao futuro bético. Processo disciplinar, já!
Ronny, põe-te fino ou vais de carrinho. Um lateral que parecia, parecia, parecia, parecia sei lá o quê!
Moutinho, joga, muito.
Romagnoli, minha nossa, que jogaço!
Miguel Veloso: gosta de enterrar uma vez por jogo. Felizmente não tem dado em nada. À parte disso, que classe.
Tonel, bem. Foste comido à força toda no segundo mas a culpa não é tua. Não estavas era à espera que o Abel fosse abelzinho naquele instante. Foi o efeito surpresa.

Levezinho, tivemos saudades da pulga atrás da orelha.

Certo, certo, é que mais uma já lá mora. E o resto são tretas.

Pouco me importa

que haja 5 mesas de um café ocupadas com estudantes universitários/as a jogar às cartas; pouco me importa que a Universidade toda cheire a vómito e mijo; pouco me importa que haja lixo por tudo quanto é lado; pouco me importa que não haja lugar para estacionar perto do trabalho; pouco me importa que a TMN faça uma promoção num site ao qual não se consegue aceder durante uma hora. Importa-me, sim, estar sentado numa mesa e uma miúda qualquer sem o mínimo de educação tirar uma cadeira sem perguntar no mínimo "posso?"
Qual velho do Restelo, à saída, "Eu não me importo que tires a cadeira. Mas devias perguntar, é uma questão de educação". O melhor: a cara de espanto, incredulidade, surpresa e, pasme-se, indignação com que acatou o recado. Mas a partir daí também já não sei muito bem. Virei costas e vim-me embora.

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Passam. Lestos. Uns após outros. Imparáveis. Eles, deitados, em cadeirinha. A cabeça dela repousada no braço dele. O relógio digital com projecção na parede vai assinalando. Faz-se tarde. Despertos. O silêncio. Não há música lá dentro, não há gatos com o cio lá fora. Nada. A vida. As minudências. As minudências da vida. Como vai ser? Pessoas em redor. Felicidade. Erros idos, caros. A recuperação, a reparação, lenta, mas determinada. As vozes denunciam-nos. Calmas, reflexivas, pensadas. Cúmplices. Olhos bem abertos. Ressoam as unhas dela nos pêlos do braço dele. Suaves. Ternas e compreensivas. Compreendidas. Encostam-se os corpos. É outro amor que se faz. Outro amor. Não aquele. Está na hora. Primeiro foi o susto. Depois o silêncio. A força. A audácia. Porque não é fácil. A possibilidade existe. O balanço, no balanço se constrói. Do equilíbrio.

19.10.07

É lindo,é lindo, é lindo!!! Quilhem-se pseudos, é das melhores publicidades que por cá apareceram!



E vale a pena ver os outros vídeos que as pessoas foram pondo no Youtube!

Coimbra Inovação Parque


Fonte (genial!):http://coimbraeumalicao.blogspot.com/2007/10/o-cartaz-da-latada-como-eu-o-vejo.html

16.10.07

Vingança

Tudo normal. Não há estacionamento. Tenta-se outro esquema, carro a 1km do local de trabalho. Passeata breve, célere, e lá se chegará em menos de nada. Sensato, certeiro, sinónimos outros. Um parque, árvores frondosas, sol que espreita por trás dos muros do quartel, fresquinho que faz bem à alma, banquinho de madeira com tinta amarfanhada, lago bem cuidado. Livro. É isto mesmo. Meia horinha de leitura ao sol, à fresca. Nas folhas, tonalidade verde-clara, ou verdes-claras, várias, umas outras que caem por ali abaixo para aterrar nos párabrisas dos carros que passam. Outono, na medida do possível. Era assim, bem me recordo. A divisória bem estabelecida das estações do ano. Primavera, Verão, Outono, Inverno. Sim, lembro-me bem. O caminho para a escola era feito, por esta altura, mesmo pelo meio (simétrico na medida do possível) dos amontoados de folhas castanhas ali despojadas. E era revolver aquilo tudo. Ah! Que maravilha.
Há pouco, vi cair umas quantas, afianço-vos. Não foi bem a mesma coisa. Fecha-se o livro, prossegue-se. Piqueno-almoço. MB. "Cartão Inválido. Card not good for use in Multibanco". Nem penses que me vais estragar esta manhã bonequito sorridente e irritante. Quando as notícias do MB não são boas devia mudar a expressão da figurilha para uma carantonha triste, no mínimo. Questão de solidariedade. Assim não. Más notícias com um sorriso? De nós. Para nós? Ainda ontem a Ariel me dizia que quando se sente triste, bota música deprê. Nem mais. Alivia a alma, sentirmo-nos ainda piores. Queremos ser miseráveis, miserabilistas, queremos ter pena de nós. Temos todo o direito a isso.
Siga. Não dá, não dá. Quem não tem dinheiro não tem vícios. Não se come. Ainda deu tempo para, casualmente, ver uma exposição de fotografia antiga e moderna da cidade de Coimbra. A Coimbra antiga e a Coimbra moderna, diga-se, não a fotografia. Vale bem a pena. Departamento de Matemática da Universidade de Coimbra. Pequeno gosto: ver uma praia fluvial enorme, com imensos barquinhos à vela no rio Mondego, em frente do local onde hoje é o restaurante Itália. Estádio Cidade de Coimbra localizado onde outrora imperava um simpático terreno arborizado. Sorriso. Gostei. Muito.
CGD. Troca de cartão. Desta vez não paga. Melhor assim.

14.10.07

Está lá tudo, está aqui tudo, está aqui o país todo. Boa semana.


Foto: B

Pedras de gelo

Só faltou perfurar-lhe o corpo. A dor e o chofre que o granizo impôs nas suas oliveiras arruinaram a estética, as linhas suaves e esverdeadas, rendilhadas aqui e ali por bicadas dos pássaros. A fronteira intransponível da pele, a delas, reconvertida a coador. A redondil ficou toda furada. Mesmo assim estão lindas, todas carregadinhas, as abas delas parecem uma chuva suave, os olhos tocam-nas com carinho e as folhas ouvem as suas palavras ternas de franca recuperação.

10.10.07

É quase tão bom como o Pipi, o homem das bolas telecomandadas.

Ganhar alento

Quando a certeza de algo que não se voltará a repetir, recuperar tempos idos, saborosos, que perduraram para lá da Cimpor e da branca espuma das ondas. Isto era tudo, foi tudo.

"Recordo sim essa noite em que subimos a serra de luzes apagadas e lá do topo ficámos a ouvir e a cantar a Tempestade na cassete que rodava incansável como o farol que lá em baixo girava como as ondas que distantes espumavam em estoiros. Aos amigos, a nossa curta-metragem, o nosso cimento, fóssil na pedra."

9.10.07

Ensejo

Assim, semi-nu, encharcado no suor de uma corrida louca, num esforço totalmente inútil de não deixar um rasto que fosse, uma molécula, um cabelo, um suspiro, uma lágrima, um grito. Que o meu recorte neste chão, escuro, sem vida, sem interstícios, sem nuances, sem dor nem prazer, denso e imutável de mim se destacasse. Assim, Noa, no meio da estrada recentemente alcatroada, ainda quente do sol que nela descansou durante todo este dia, que levou víboras e sapos e osgas e salamandras pretas com pintas amarelas a atravessarem-na e nela se depositarem, mesmo assim, sou eu o único réptil que rasteja, correndo. Rastejo-me. Hoje, de má memória, ignóbil e abjecto, apresso-me, no único acto lúcido que neste momento me ocorre, a comer as raízes, envenenadas por certo, que estiveram no assentamento de todo o mal que te fiz.

Oxímoros pela manhã

Na rubrica de Internet da Antena 3 falaram acerca do site remodelado da MTV Portugal. Biografias mais extensas dos artistas, informações sobre concertos, passatempos, críticas sobre jogos de consolas. Deixei de ouvir quando me pediram para votar nos Buraka Som Sistema para a categoria de New Sounds of Europe. Era só o que faltava. Não gosto, não gosto, não gosto.

Do cabelo à culinária

Reparo que há um novo champô lá em casa com óleo de abacate e manteiga de Karité. Acho que nunca comi nada que fosse assim tão requintado.

Pulseira? Anel? Mala? Aquele top giríssimo?

Nada de novo, mas tudo novamente mal, difícil, inominável. Na hora da decisão, da escolha, da alternativa outra, aquele suspiro que indicia um pensamento, "que raio faço eu aqui?". É uma noção assustadora de querer, a todo o custo, corresponder às expectativas sabendo que estas estão, à partida, viciadas pelo circunstancialismo do que se afigura como uma tarefa impossível. "Mais valia ter ido para casa. Isto é uma vergonha. Como é que ela é?. Oh minha senhora, é a mulher que me preenche, é a mulher que eu quero. É tudo o que quero saber acerca dela. Na verdade, tudo o que sei acerca dela está nesta frase." Mas não basta. Certo e sabido.

Começa-se, então, a pensar num rol de actividades que poderia estar a praticar, a experimentar, a reviver. Não queria estar aqui. Poderia estar perfeitamente a fazer bolhinhas de sabão, com aqueles tubinhos que se vendem nas feiras. Tentar fazer aquela bolha gigante, e depois uma outra, tendo como objectivo último a união entre essa a outra entretanto insuflada. Ou meter a bolinha naqueles buraquinhos na tampa desses frasquinhos. Meter as duas bolinhas é que era mesmo difícil. E o cubo? Não hei-de morrer sem fazer aquilo. As corzinhas todas, chiça. Que trabalheira, aquilo sim, dá-me a volta ao miolo. A história dos castelos na areia não. Não, isso não que nunca tive jeito nenhum. Nem para isso nem para jogar às cartas. Nem jogos de estratégia e já agora, nem para negociar as coisas nas feiras. Levam-me sempre à certa, os sacanas. Jogar futebol, sim, futebol. Ou squash. Comecei a adorar squash. Porra, tenho também que arranjar o comutador para as colunas novas do portátil. Como é que aquela porcaria não funciona? Dá um gajo uma pipa de massa para chegar a casa e funcionarem 3 de 6 colunas. Ele há coisas...

A figura ridícula, continuo a fazê-la. Aquele sorriso forçado, semi-envergonhado, ao mesmo tempo que a senhora pensa "mais um que não percebe nada do que é que uma mulher quer". O sorrisinho sarcástico, o olhar de soslaio, aquela troca de palavras em surdina com a colega de trabalho seguida de uma risadinha enquanto olham as duas para mim. Tento refugiar-me, social e psicologicamente, dando aquele ar semi-distraído e/ou interessado enquanto ponho as mãos atrás das costas para observar o colar da última colecção na MD. Como vê, castanho, com um ornamento em metal lindíssimo e altamente invulgar, uma peça única. Única.

Única, a única escolha impossível, diria.

4.10.07

Oh João!

“Foi dos maiores choques da minha vida ver que aquela matéria causava um profundo mal-estar, era como um corpo estranho no corpo ético do PS."

"Oh João!" é também o nome de um talho por baixo do apartamento de um amigo meu.

É boa disposição e faz maravilhas à alma.


De cavalo para burro

Na Feira de S.Mateus, não a de Viseu, mas a de Elvas, que também é muito boa, tem imensos stands de automóveis e isso, diversões até, juntavam-se há cerca de 63, talvez 65 anos, ou mais ou menos, todas as famílias cujas vidas se desenrolavam nas cercanías daquela cidade. O evento não era para menos, a Feira de S. Mateus era o evento, i.e., a única altura de alguma agitação, folia e festividade num Alentejo miserável, trabalhador e explorado.

A duração: uma semana. As parentelas vinham nas suas carroças lá de muito longe, tipo 4 quilómetros, ou mais, 50, por exemplo, e juntavam-se todas nas redondezas da feira. Ali se pernoitava, comia e bebia. A gestão social era feita pelo animal tractor da carroça. Não seria o modelo destas últimas a condicionante ou indicativo do estrato social pertencente, mas o próprio quadrúpede. As três classes, como hoje temos os jipes, os utilitários, os comerciais e os Pandas e 4L, eram, por ordem decrescente, cavalos, machos, burros.

Numa das edições desta feira, um senhor, desprovido de qualquer preconceito, estacionou a carroça, com o asno de sua propriedade, junto a um grupo de fidalgos detentores de nobres equídeos e híbridos funcionais. A reacção, que não tardou um par de horas a surgir, veio de alguém da alta sociedade, cujo Equus caballus, de porte elevado e cor límpida, se encontrava em animado convívio (não tão animado assim) com o de estrato social inferior.

Com algum tipo de receio que o intercâmbio entre os animais pudesse conspurcar a limpidez e rígida estratificação social em vigor na altura, a ameaça ao proprietário do jumento foi breve, mas clara: "Ou você tira já daí o burro ou tratamos-lhe da saúde!"

O ameaçado, irado não só pela ameaça mas também pelo motivo da mesma, pegou na vara de marmeleiro com a qual estimulava o jerico, empunhou-a bem alto e disse: "ai querem-me tirar daqui mais a minha família por causa do burro?!Então venha de lá o primeiro!".

Esse senhor era o meu bisavô.

p.s. Nem o meu bisavô nem a família dele arredaram pé. Nem o burro, já agora.